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E então aceitaremos a realidade do progresso

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por Kevin Kelly*

Estou otimista apenas por um motivo, que por definição é o único que pode nos deixar otimistas: o futuro. Quando faço as contas dos mais e menos do mundo, eu vejo progresso. O amanhã parece melhor do que o hoje. Não falo apenas de progresso para mim, mas em conjunto para todos no planeta e na média individual.

Nenhuma pessoa com alguma sanidade mental pode ignorar as melhoras nas doenças do planeta. As doenças do meio ambiente, das diferenças sociais, da guerra, da pobreza, da ignorância e as doenças do corpo e da alma de bilhões de habitantes do planeta não passam desapercebidas. Nenhuma pessoa racional pode ignorar as novas doenças que são cultivadas através das nossas invenções e atividades, incluindo doenças geradas pela nossa boa vontade em querer curar outras velhas doenças.

A destruição contínua de coisas e pessoas boas parece incansável. E é. Mas o surgimento de coisas boas também é incansável. Quem pode argumentar a respeito dos milagres dos antibióticos, mesmo eles sendo receitados mais do que deveriam? A eletricidade? Rádio? A lista de coisas positivas é inesgotável. Mesmo com os seus pontos menos positivos. Nós acabamos demonstrando o seu valor ao comprar essas coisas em grandes quantidades. E para combater doenças já conhecidas continuamos a inventar novas soluções. Algumas delas acabam sendo piores do que o problema para o qual foram supostamente criadas para solucionar, mas isso é apenas a minha observação sobre produtos sem valor acrescentado. Com o tempo as novas soluções vão sendo melhoradas e lentamente superam o problema que deveriam solucionar.

Como disse uma vez Rabbi Zalman Schacter-Shalomi, “Há mais coisas boas do que más no mundo, mas não muito.” Inesperadamente, o “não muito” é tudo o que você precisa para fazer com que as coisas melhorem, assim se forma a cultura. O mundo precisa ser apenas 1% (ou um décimo de um 1%) melhor a cada dia para formar uma civilização. Desde que nós criemos a cada ano 1% a mais do que destruímos, estamos progredindo. Esse delta é tão pequeno que parece imperceptível, particularmente quando confrontado com os 49% de morte e destruição que são esfregados na nossa cara todos os dias. Mesmo assim, com essa minúscula, magra e envergonhada diferença está havendo progresso. Mas será que há realmente esse 1% de melhoramento? Acho que a única prova que temos é o comportamento das pessoas. Quando paramos para tentar perceber de verdade a vida das pessoas, vemos inevitavelmente que caminham em direção a uma maior oportunidade de escolha, mais opções e uma melhora significativa nas possibilidades oferecidas pelo futuro.

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Não conheço ninguém que já tenha descoberto como viver no futuro. Talvez um dia inventaremos máquinas baratas que nos permitirão passar férias cem anos futuro a dentro. Neste exato momento se queremos viver no “amanhã”—naquele lugar que é um pouco melhor do que o hoje—o melhor que podemos fazer é viver na cidade com o aspecto mais moderno do mundo. As cidades são onde o futuro acontece. É onde estão as melhores oportunidades e possibilidades. Todos os dias um milhão de pessoas mudam do interior para as cidades. Essa viagem é muito mais uma viagem no tempo do que no espaço.

Esses emigrantes estão realmente mudando para anos a frente no tempo. Mudando de vilas medievais para os espaços urbanos do século 21. As doenças das favelas onde eles vão parar são bem visíveis e não impedem a chegada de mais pessoas. Eles continuam vindo, da mesma maneira que todos nós fizemos, por um ligeiro aumento de oportunidades e escolhas que não tínhamos no passado. É exatamente o mesmo motivo pelo qual nós fizemos essa mudança, para ter mais 1% de escolha.

Voltar ao passado nunca foi tão fácil. Os cidadãos de países em desenvolvimento apenas precisam ir até as suas cidadezinhas para ter contato e viver as velhas tradições num estilo de vida limitado. Se eles quiserem de verdade, podem viver sem nenhuma dessas tecnologias modernas que temos. Por sua vez, os cidadãos do mundo desenvolvido podem comprar um bilhete e em menos de 24 horas estar hospedados numa cabana no meio do mato no Nepal ou no deserto do Mali. Se você faz questão de abrir mão das variadas opções no mundo à sua volta, pode adotar aquelas limitações e viver o resto da sua vida lá. Inclusive você pode escolher o período do tempo onde quer viver. Se você acredita que o pico da nossa existência foi alcançando no período Neolítico, pode ir viver acampado na selva Amazônica. Se suspeita que os tempos dourados foram na última década do século 19 pode ir viver no meio dos Amish. Nós temos a inacreditável oportunidade de viajar até o passado, mas o incrível é como tão poucas pessoas querem realmente viver lá. Exceto alguns raros casos, ninguém faz questão. No lugar disso, em todo o mundo, em todos os períodos históricos e em todas as culturas as pessoas correram em direção ao futuro das “melhoras mínimas de oportunidades” o mais rápido que puderam.

Por que? Porque o futuro é ligeiramente melhor do que o passado. E o amanhã vai ser ligeiramente melhor do que o hoje. E enquanto as ações de todo mundo confirmam a realidade essencial do progresso, curiosamente nós fazemos de tudo para não admitir em público o mesmo progresso. Eu estou otimista sobre os anos que vem pela frente, porque finalmente vamos aceitar a realidade do progresso e quem sabe viver melhor no presente.

*Kevin Kelly é “andarilho sênior” da revista Wired. Ele ajudou a lançar a Wired em 1993, e serviu como seu editor executivo até janeiro de 1999. Atualmente, é editor e publisher do site Cool Tools, que recebe um milhão de visitantes por mês. De 1984 a 1990, Kelly foi publisher e editor do Whole Earth Review, uma revista científica de notícias técnicas pouco ortodoxas. Ele foi co-fundador da Conferência dos Hackers que continua sendo realizada, e esteve envolvido no lançamento da WELL, um serviço online pioneiro iniciado em 1985. Foi autor do best-seller New rules for the new economy (em português, Novas regras para a nova economia) e do clássico sobre sistemas descentralizados emergentes, Out of control (em português, Fora de controle). Ele pode ser encontrado pelo e-mail kk arroba kk ponto org.

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